EMBU DAS ARTES (SP) – A condenação do ex-prefeito de Embu das Artes, Ney Santos, por porte e transporte de arma de fogo com numeração raspada, voltou a repercutir no cenário jurídico e político da cidade e da região. Embora a defesa tenha recorrido da sentença, a Procuradoria-Geral de Justiça do Estado de São Paulo (PGJ) já se manifestou de forma contrária ao recurso, opinando pela manutenção da condenação.
O caso, que teve origem em 2019, segue em tramitação no Tribunal de Justiça de São Paulo e é acompanhado de perto por lideranças políticas, jurídicas e pela população, devido aos seus impactos institucionais e eleitorais.
Entenda o caso
O episódio ocorreu em fevereiro de 2019, quando Ney Santos, então prefeito, viajava em um veículo oficial da Prefeitura de Embu das Artes no trajeto entre Cosmópolis e a capital paulista. O automóvel foi abordado pela Polícia Militar após suspeita quanto ao percurso adotado.
Durante a abordagem, os policiais encontraram uma pistola calibre .380 com numeração raspada, além de munições, carregadores e uma mira a laser, acessório de uso restrito. O armamento estava no interior do carro, em local de fácil acesso aos ocupantes.
O motorista, um agente de escolta penitenciária, foi preso em flagrante. Ney Santos foi ouvido e liberado naquele momento, mas posteriormente o Ministério Público ofereceu denúncia com base no Estatuto do Desarmamento, que considera crime grave a posse ou transporte de arma com numeração suprimida.
Condenação em primeira instância
Após a tramitação do processo, a Justiça condenou o ex-prefeito a 3 anos e 9 meses de prisão em regime semiaberto, além do pagamento de multa.
Na sentença, a magistrada destacou que:
- a arma circulava livremente no veículo;
- o revezamento na direção indicava responsabilidade conjunta;
- o fato de o réu exercer o cargo de prefeito exigia conduta ainda mais rigorosa, por se tratar de agente público.
Esses elementos levaram à rejeição da tese de desconhecimento da arma apresentada pela defesa.
Parecer da PGJ: sentença deve ser mantida
Com a interposição de recurso, o processo foi analisado pela Procuradoria-Geral de Justiça, que emitiu parecer pela manutenção integral da condenação.
Para a PGJ:
- há provas suficientes de autoria e materialidade;
- não foram identificadas nulidades no processo;
- o crime se configura pelo simples transporte da arma com numeração raspada;
- não importa quem seja o proprietário formal do armamento.
O Ministério Público ressaltou ainda a gravidade do delito, especialmente pelo uso de veículo oficial e pela condição de agente político do réu à época dos fatos.
O que diz a defesa
A defesa de Ney Santos segue sustentando que o ex-prefeito não tinha conhecimento da existência da arma, alegando que o equipamento pertenceria exclusivamente ao motorista.
Os advogados afirmam que:
- não houve dolo;
- a condenação ainda não transitou em julgado;
- o processo passou por questões de competência que, segundo a defesa, fragilizariam a decisão atual.
Por esse motivo, Ney Santos permanece recorrendo em liberdade, como permite a legislação.
Repercussão política em Embu das Artes
A condenação e o parecer contrário da PGJ têm impacto direto no cenário político de Embu das Artes. Ney Santos governou o município por dois mandatos consecutivos e, até recentemente, manteve influência sobre grupos e lideranças locais.
O avanço do processo amplia o desgaste político e afeta qualquer projeto de retorno imediato ao protagonismo eleitoral, além de gerar reflexos entre aliados e forças políticas que orbitam seu grupo.
Reflexos regionais
Na região sudoeste da Grande São Paulo — que engloba cidades como Taboão da Serra, Itapecerica da Serra, Embu-Guaçu e Cotia — o caso é visto como um marco no debate sobre:
- responsabilidade de agentes públicos;
- uso de bens oficiais;
- rigor do Judiciário e do Ministério Público.
O desfecho poderá influenciar estratégias políticas e reforçar o papel dos órgãos de controle na fiscalização da vida pública regional.
Próximos passos
O processo segue agora para análise do Tribunal de Justiça de São Paulo, que deverá decidir se mantém ou não a condenação, levando em conta o parecer da Procuradoria-Geral de Justiça e os argumentos da defesa.
Até a decisão final, o caso segue como um dos episódios judiciais mais relevantes da história recente de Embu das Artes, com desdobramentos que ultrapassam os limites do município.
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