Educação em caos: descarte de livros em Osasco gera revolta e reacende alerta sobre destruição do patrimônio cultural

 Por Redação – Canal PratiCidade

A cidade de Osasco, na Grande São Paulo, vive um dos episódios mais graves de sua história recente no campo da educação e da cultura. Durante a Semana Mundial do Livro, celebrada em abril, moradores flagraram o descarte de centenas de livros da Biblioteca Pública Monteiro Lobato, jogados em caçambas de lixo pela Prefeitura. As imagens, amplamente divulgadas nas redes sociais, provocaram indignação generalizada entre educadores, escritores, estudantes e a sociedade civil organizada.  


Embora não tenha havido fogo, o ato foi rapidamente comparado a uma “queima simbólica de livros”, expressão utilizada para definir situações em que o conhecimento é eliminado, negligenciado ou tratado como descarte, sem qualquer política de preservação ou diálogo com a comunidade.


📚 Biblioteca fechada desde 2020 e abandono do acervo

A Biblioteca Pública Monteiro Lobato, fundada na década de 1960, é um dos principais símbolos culturais de Osasco. Antes de ser fechada em 2020, durante a pandemia de Covid-19, o espaço recebia cerca de duas mil pessoas por mês, promovendo leitura, estudo, encontros culturais e inclusão social. Desde então, permaneceu fechada ao público, sem manutenção adequada do prédio e do acervo. 

Segundo relatos de moradores e professores, livros, jornais antigos e documentos históricos da cidade ficaram armazenados por anos em ambientes inadequados, o que contribuiu para sua deterioração. Em vez de investir na recuperação do acervo, a administração municipal optou pelo descarte em massa.


🏛️ Justificativa oficial é contestada

A Prefeitura de Osasco afirmou que os livros estavam contaminados por fungos e mofo, o que impossibilitaria seu reaproveitamento. No entanto, essa justificativa vem sendo duramente contestada por especialistas e por quem presenciou a retirada do material.

O sociólogo Roque Aparecido da Silva, que acompanhou a ação, questionou a ausência de laudos técnicos públicos e relatou que muitos livros aparentavam estar em bom estado, podendo ser recuperados por meio de tratamento adequado. 

A professora Juliana Gomes Curvelo, também ouvida por veículos de imprensa, destacou que o acervo era composto majoritariamente por doações da própria comunidade, incluindo obras de autores osasquenses, o que reforça o caráter simbólico e histórico da perda. 


🔥 “Queima de livros” sem fogo, mas com grande impacto

Historicamente, a destruição de livros está associada a regimes autoritários, censura e ataques ao pensamento crítico. Para especialistas em educação, o que ocorreu em Osasco se enquadra naquilo que estudiosos chamam de eliminação estrutural do conhecimento: quando o Estado deixa de proteger, preservar e promover o acesso ao livro.

Mesmo sem chamas, o descarte em caçambas transmite uma mensagem poderosa: o livro deixa de ser prioridade, especialmente para a população mais vulnerável, que depende dos equipamentos públicos para acesso à leitura.


🎓 Educação pública é a mais afetada

Dados recentes apontam que menos da metade das escolas de Osasco possuem bibliotecas ou salas de leitura, número ainda menor na rede municipal. Isso contraria diretamente a Política Nacional de Leitura e Escrita (PNLE), instituída pela Lei nº 13.696/2018, que reconhece o acesso ao livro como um direito fundamental e elemento central para o exercício da cidadania. 

O descarte do acervo público amplia desigualdades, atinge diretamente crianças e jovens da periferia e esvazia qualquer discurso oficial sobre “valorização da educação”.


🔎 Reformas milionárias e falta de transparência

Outro ponto que aumenta a revolta popular é a informação de que a biblioteca passou por obras iniciadas em 2023, com promessa de entrega em 2024, o que não ocorreu. Mesmo assim, um novo contrato de reforma, superior a R$ 1,5 milhão, foi firmado em 2026, sem que a população tenha acesso a detalhes claros sobre prazos, cronograma ou destino do acervo eliminado. [g1.globo.com]


📢 Reação da sociedade civil

A mobilização popular foi imediata. Moradores chegaram a resgatar livros diretamente das caçambas para evitar a perda total. Educadores e coletivos culturais defendem a abertura de investigação pelo Ministério Público, além da criação de políticas permanentes de preservação da memória da cidade.


⚠️ Um alerta para Osasco e para o Brasil

O episódio em Osasco não deve ser tratado como um caso isolado ou mero problema administrativo. Ele lança luz sobre um modelo de gestão que enfraquece bibliotecas, reduz o acesso ao livro e empobrece o debate educacional.

Sem bibliotecas abertas, sem acervos preservados e sem políticas de leitura, falar em qualidade da educação torna-se um discurso vazio.


✍️ Considerações finais

A destruição – física ou simbólica – de livros é sempre um ataque ao futuro. Em Osasco, a sociedade exige respostas, transparência e, sobretudo, respeito à educação, à cultura e à memória coletiva.

O livro não é lixo. Livro é história. Livro é cidadania.

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